Tempos estranhos esses em que vivemos. Quem nunca teve aquele amigo chato que achava que era dono do mundo só por que era dono da bola. Sabe, criança mimada, podia perder todas, mas nunca saia de campo. Ditava as regras do jogo sempre que a situação lhe “forçava” a tal. As coisas deveriam funcionar como ele queria, senão, pegava a bola, ia embora e acabava com a festa de todo mundo. E o pior de tudo, era sempre muito ruim de bola!
Quando vejo as notícias sobre a Amazônia – principalmente quando o candidato à presidência da Republica norte-americana Barack Obama apresenta sua plataforma política dizendo que a Amazônia é recurso global – me lembro daquele amigo chato.
Por isso, gostaria de colocar algo aqui que me veio à mente. Algo que nos mostre quais são os valores que realmente temos com aquilo que é nosso, ou não. Serviu de lição para mim. O texto a seguir foi escrito em meados de 1984, pelo chefe Seattle, da tribo Suquamish, em resposta a uma proposta de compra territorial feita por Ronald Wilson Reagan, atual presidente dos EUA. A proposta era comprar as terras indígenas e garantir que os mesmos ficassem abrigados em outro lugar. Este texto foi divulgado pela UNESCO em 1976, durante as comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente.
Bom, segue o texto:
“Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Esta idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia nas praias, a penumbra da floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e na experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.
Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem, todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o grande chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós. O grande chefe diz que nos reservará um lugar onde nós possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nos seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isto não será fácil. Esta Terra é sagrada para nós.
Essa água branca que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue dos nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra vocês lembrar-se-ão que ela é sagrada e devem ensinar às crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam a nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e também seus. E portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra tem, para ele, o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem a noite e extrai da terra aquilo que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente o deserto.
Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho.
Talvez seja porque o homem vermelho é selvagem e não compreende.
Não há lugar quieto na cidade do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto, mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de um ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespado a face do lago, e o próprio vento limpo por um chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro – o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante a vários dias, é insensível ao mau cheiro, mas se vendermos nossa terra ao homem branco ele deve lembrar que o ar é precioso para nós , que o ar compartilha seu espírito com toda vida que mantém. O vento que deu ao nosso avô seu inspirar, também recebe seu último suspiro. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pela flor dos prados.
Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Ser um selvagem é não compreender qualquer outra forma de agir. Ver milhares de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem a passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais logo acontece com o homem. Há ligação em tudo.
Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra e digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças que ensinamos às nossas, que a terra é a nossa mãe.
Tudo o que acontecer com a terra acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos, a terra não pertence ao homem, o homem pertence a terra. Isto sabemos, todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família, há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida: ele é, simplesmente, um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. E possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não é possível. Ele é o Deus da misericórdia e da compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa e feri-la é desrespeitar seu Criador. Os brancos também passarão, talvez mais cedo que todas as outras tribos. Contaminem suas camas e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando desaparecerem, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a essa terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados com o cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam. Onde está o arvoredo? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência.
O texto fala por si, e o que dito foi, dito está. Só espero que haja maior conciência!